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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A difícil tarefa de popularizar o conhecimento


Por Camila Cunha
Divulgar ciência na mídia pode não ser uma tarefa muito fácil. Os conflitos surgem devido à divergência de discursos dos jornalistas e de profissionais de outras áreas especializadas. É necessário adequar a linguagem científica para a linguagem jornalística.
Para a jornalista Aline Dalmolin, mestre e doutora em Comunicação pela Unisinos, não foi difícil fazer essa adequação. A jornalista que teve trechos da sua dissertação sobre a reforma editorial executada por Padre Lauro Trevisan na revista Rainha publicada no Diário de Santa Maria, explica a forma como esquematizou sua publicação: “Procurei escrever um texto que articulou as entrevistas obtidas como dados na pesquisa, como se fossem entrevistas, ou seja, utilizando as informações do entrevistado como declarações”. Dalmolin ressalta que para isso solicitou uma nova autorização do entrevistado, visando as questões éticas de publicar as informações fora do âmbito original, no caso sua dissertação de mestrado.   Segundo o advogado, ex-promotor e professor de direito da Ulbra de Santa Maria, João Marcos Adede y Castro, é natural que o jornalista não compreenda a linguagem técnica muitas vezes utilizada em seus diversos trabalhos publicados na mídia. Por isso sempre envia aos jornalistas um resumo de suas pesquisas.
Adede y Castro afirmou que os jornalistas redigiram os textos das publicações sozinhos, apenas contando com as informações que lhes foram passadas. O advogado ainda ressaltou que, em raros casos, os jornalistas telefonaram para pedirem mais esclarecimentos sobre o assunto da pesquisa. Já Dalmolin afirma que o texto foi inteiramente redigido por ela mesma. Os jornalistas só realizaram o trabalho de edição e inclusão de imagens.
São estas questões que geram polêmicas. Será que os jornalistas estão preparados para divulgarem pesquisas de outras áreas sem perder a credibilidade?
Além de disseminar o conhecimento cientifico é necessário interpretá-lo e contextualizá-lo para que o leitor possa entender sua real dimensão. Porém, essa adequação impõe riscos e distorções nos conteúdos cientificos.  
Adede y Castro encara esses “erros” como naturais ao processo, mas no seu caso nenhum destes desvios comprometeu a informação que estava sendo passada.
Aline Dalmolin avalia a relação entre jornalistas e cientistas como amistosa e cordial, atingindo sempre o objeto de passar a pesquisa de uma forma melhor, e mais acessível. A pesquisadora conclui, dizendo que se não existisse essa relação, o público jamais teria acesso a informações importantes que muitas vezes ficam restritas apenas ao mundo acadêmico.
O papel do jornalista é essencial na divulgação e na democratização da ciência, e para que os trabalhos de pesquisadores não fiquem apenas restritos a pesquisadores ou guardados em gavetas. Divulgar pesquisas científicas é popularizar o conhecimento. Apesar de culturas diferentes os trabalhos de jornalistas e pesquisadores devem ser somados.
Graça Caldas em seu artigo sobre divulgação científica(2010) fala sobre essas diferenças que devem ser agregadas: “[...] devem utilizar as diferenças, exatamente, para garantirem a distribuição do saber, do conhecimento, em benefício público, para que a sociedade possa participar ativamente dos processos decisórios sobre assuntos que interferem diretamente no cotidiano”. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Divulgação científica e a consciência social da população

    Por Ingrid Bravo

   Por que divulgar ciência? Muitos motivos poderiam ser mencionados. Divulgar ciência ajuda a melhorar a educação e traz conhecimento. A divulgação científica atrai jovens ou entusiastas para o convívio do meio científico e ajuda a desmistificar conceitos equivocados e mitos sobre o papel do cientista ou pesquisador.

   Divulgar ciência não é um trabalho simples, porém, todos os envolvidos com ciência deveriam fazê-lo. Uma pesquisa bem apresentada ao público pode render reconhecimento e, até mesmo, fundos para continuar o trabalho. A população deve ter conhecimento da importância e necessidade dessa ou daquela pesquisa.

    Quando o cientista e/ou pesquisador divulga o seu trabalho, presta contas à sociedade daquilo que investiu. Um pesquisador tem de explorar um modo de divulgar o seu trabalho de maneira clara e precisa. Professora adjunta do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Centro de Ciências da Saúde da UFSM, Liliane de Freitas Bauermann, conta que divulgar o trabalho na mídia comum depende muito do que ele aborda. “Interesse do público é o que facilita ou dificulta a divulgação de qualquer trabalho produzido”, explica.

     Outro papel importante do divulgador é a correção de equívocos, conceitos errôneos e a má divulgação científica. Em nosso meio, existem pessoas que se aproveitam do vazio deixado pela ciência na mídia e se autoproclamam especialistas, quando muitas vezes nem trabalhos possuem. No caso do mestrando do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFSM, Robson Borba de Freitas, a pesquisa acadêmica o acompanha desde 2008. “Durante minha vida acadêmica desenvolvi trabalhos com produtos naturais, dentre eles as plantas medicinais. O cerne do meu estudo está baseado na investigação de possíveis efeitos tóxicos de plantas medicinais da flora gaúcha”, relata o pesquisador.

            A linguagem superespecializada e os procedimentos rigorosos adotados pelos pesquisadores tendem a afastar a ciência das pessoas. Porém, a pesquisa é um produto social como outro qualquer. Para transladar os resultados de suas pesquisas aos meios de comunicação, Liliane ressalta que a divulgação varia do tipo de mídia. “Revistas, palestras, entrevistas, imprensa, televisão. Dependendo da mídia é a maneira como colocamos os resultados. Deve-se respeitar o formato da mídia. Tenho que ter a capacidade de adaptar os meus resultados conforme as regras da mídia”, ressalta.

            A ciência, no entanto, não deve ser simplificada na pedagogia do “Você sabia?”. Para os pesquisadores, ciência é bem mais que uma compilação de curiosidades. “Em pesquisa, não gosto de falar em desfecho bom ou ruim. Resultado negativo também é resultado, tendo bastante valia no meio acadêmico. Na minha linha de pesquisa, provar através de métodos estatísticos que uma determinada planta é tóxica, mesmo querendo que ela fosse isenta de toxidez, agrega conhecimento a pesquisadores e profissionais da área da saúde que desconheciam tal característica”, explica Robson. Deu para entender por que pesquisar a ciência não é brincadeira?

            A divulgação científica possui múltiplos objetivos e pode ser realizada de forma individual ou em grupo. No laboratório em que chefia na UFSM, Liliane parte do princípio da coletividade. “Todos nos ajudamos. Dá para se dizer que uns são assessores dos outros. Desta maneira, podemos atuar em várias posições. Por exemplo, não tem uma pessoa que faça uma análise bioquímica e só ela domine a técnica, ao contrário, ela ensina outra pessoa e esta outra pessoa assim por diante”, completa a pesquisadora.

            As formas mais tradicionais de divulgação são em forma de textos, vídeos, feiras e palestras, porém também é possível disseminar o conhecimento científico através das novas tecnologias como blogs e portais na internet. Uma preocupação de quem faz divulgação científica é saber como a mídia trata o seu trabalho. Será que esse material científico vai ser de interesse do público em geral? Como avaliar estes interesses?

            Para Liliane, a imprensa traz um pequeno espaço de divulgação, porém, segundo ela, nunca negou atenção para as atividades realizadas no laboratório. “Dentro da instituição que trabalho, atualmente, nosso trabalho vem sendo prestigiado, principalmente, pelo nosso programa de extensão Prevendroga. Quanto à pesquisa básica, a UFSM dispõe de atividades para divulgação.”, diz.

            É fato que os cientistas precisam fazer divulgação científica para que a sociedade forme uma consciência social sobre a atividade científica, mas é essencial o contato dos cientistas com a realidade da sociedade. A partir desse entendimento da realidade e do conhecimento científico, a ciência consegue promover inovações e trazer avanços tecnológicos em prol de todos.

A divulgação científica vista por eles, os pesquisadores


Por Mauren Freitas
     A divulgação científica, também chamada de “popularização da ciência” envolve as atividades que buscam fazer a mediação de informações produzidas na academia para a comunidade em geral, deforma a difundir o conhecimento científico para públicos/leitores não especializados.
     Aos cientistas cabe o papel de pesquisar, tentar transformar o conhecimento acadêmico em prática, em uma forma de conhecimento “palpável” que a população possa usufruir e se beneficiar de alguma forma. Afinal, é a sociedade que financia, indiretamente, os estudos realizados nas universidades, e deve receber o retorno deste investimento. Já ao jornalista, cabe o papel de divulgar os resultados destas pesquisas da ciência. Porém, durante este processo são identificadas algumas zonas de tensões entre jornalistas, os mediadores do processo, e cientistas, os responsáveis pelas descobertas. Mas, por que isso acontece? Quais as principais dificuldades de se transmitir a ciência à sociedade? Com a palavra, eles: os pesquisadores.
     Para o economista, professor adjunto horista do Centro Universitário Feevale Coordenador do Polo de Inovações Tecnológicas e Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), José Airton Brutti, a mídia divulga o que é do interesse de seu público e que este segmento do jornalismo não é muito popular. “Dá para contar as vezes que os resultados de pesquisas são divulgados na mídia.  Isso só ocorre quando é algo bizarro ou, então, muito inovador. Trata-se do que é interesse e o que não é para aquele meio”. Ainda segundo Brutti, o Brasil produz milhares de artigos científicos por ano, mas o conhecimento científico acaba ficando restrito às academias por falta de interesse editorial e profissionais capacitados para fazer esta transição de conhecimento e linguagem.
    “Gostaria que houvesse maior divulgação na mídia do que é realizado nas universidades, é o meio de repassar o conhecimento à comunidade”, afirma Melânia Palermo Manfron, doutora em Ciências Biológicas pela UNESP, professora de Farmacognosia no Curso de Farmácia da UFSM e chefe do Departamento de Farmácia Industrial da UFSM. Segundo Melânia, o tratamento jornalístico dado às pesquisas carece de alguns critérios, mas ela reconhece e ressalta a importância desta divulgação. “Quando fui convidada para divulgar trabalhos realizados, conversamos um pouco sobre as perguntas que seriam feitas e tudo transcorreu normalmente. O resultado da divulgação foi positivo”, afirma.
    O farmacêutico e doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFSM, Ritiel Corrêa da Cruz, traz um questionamento diferente em relação ao tratamento jornalístico dado às pesquisas científicas. “Em pesquisa, se gera muito resultado negativo. Mas, um dos principais problemas que eu identifico é que o atual modelo de divulgação científica só foca no positivo”, afirma o doutorando. Para ele, isto é muito equivocado. Afinal, o resultado negativo faz descobertas tão boas quanto ao resultado positivo, pois ajuda outros pesquisadores a excluir possibilidades e, de certa forma, poupa tempo e recursos financeiros, que seriam investidos de forma equivocada. Cruz faz outra crítica em relação aos critérios jornalísticos de publicação. “A mídia procura os resultados positivos, pois são mais impactantes. Podendo ser tratados de forma mais sensacionalista”.
   Já a professora de Enfermagem do Centro Universitário Franciscano (Unifra) e doutora em Enfermagem pela UFSC, Dirce Stein Backes, acredita no jornalismo como uma ferramenta fundamental para a evolução e popularização da ciência. “O principal papel do jornalista é ajudar a desenvolver essa nova cultura de conhecimento acadêmico, para desenvolver ainda mais a pesquisa. Para isso, precisamos de algo impactante, e o jornalismo é algo extremamente, impactante. Precisamos, nós enquanto pesquisadores, saber aproveitar e usar destas possibilidades de divulgação”.
     Katia Barreto, doutora em Ciências Biológicas pela UFRGS e professora do Departamento de Fisiologia da UFSM, acredita que tudo depende do “alvo” da mídia e considera que o jornalista deve passar a informação de forma que ela seja entendida pelo maior número de pessoas. “Por exemplo, é compreensível que uma notícia do resultado de uma pesquisa muito importante, publicado em uma revista igualmente importante, tenha que ser ‘traduzido’ para um contexto mais próximo do público-alvo”, declara Katia. Quando questionada em relação à linguagem e as discrepâncias evidenciadas pelos pesquisadores nos textos jornalísticos de ciência, a professora acrescenta que não ocorrem distorções graves no sentido de desqualificar a informação original passada pelo pesquisador.
     O fato é que cada um dos pesquisadores ouvidos tem um ponto de vista diferente. Alguns meio parecidos, outros, divergentes. Entretanto, todos convergem, quando aceitam a mídia como um ótimo espaço de circulação e popularização da ciência. O que importa, realmente, é ter-se identificado, de forma primária, os acertos, os erros e os preconceitos que existem entre as classes. Principalmente, a leitura que a mídia faz dos resultados das pesquisas científicas, vista por eles, os cientistas. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Marcelo Gleiser: o físico literático


Essa análise foi realizada acerca da coluna do físico Marcelo Gleiser publicada na edição imprensa e na página virtual do jornal Folha de São Paulo. O colunista é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). Gleiser venceu duas vezes o prêmio Jabuti, e é autor de diversas publicações, seu livro mais recente está “Criação Imperfeita” onde fala sobre a relação tênue entre religião e ciência, e desmistifica a ideia de que há ordem sob o Universo, defendendo a celebração das imperfeições da natureza.
Foram selecionados os dois últimos textos publicados por Marcelo Gleiser em sua coluna. Gleiser escreve com uma periodicidade semanal. Dessa forma, serão apresentados os textos “A morte do Nada” e “Copérnico traído”, respectivamente dos dias 4 de novembro e 28 de outubro de 2012. Na página da Folha de São Paulo, estão disponíveis mais de 60 textos do colunista. Seu primeiro texto publicado foi “Ciência e inovação no Brasil”, no dia 7 de agosto de 2011. Na edição imprensa, sua coluna é veiculada aos domingos no caderno “Cotidiano” na editoria de “Ciência + saúde” O espaço de sua coluna no impresso faz uma relação com o cotidiano do leitor. Dessa forma, se dá ênfase a ciência com participação constante no dia-a-dia do leitor.
No espaço virtual, seu texto abre espaço para comentários do leitor, bem como o compartilhamento através das redes sociais. “A morte do Nada” possui 18 comentários até o momento da análise, enquanto “Copérnico traído” foi comentado 24 vezes. É comum encontrar um entrelaçamento com o literário na forma de escrever de Marcelo Gleiser, onde o leitor é conduzido por linhas que não tem a complexidade conhecida da ciência e que lhe sugere uma leitura fluida. É preciso salientar, ainda, que o autor não se enquadra em gênero informativo, pois fala de ciência com um tom pessoal onde, talvez, sua forma de escrever refere-se ou assemelha-se às crônicas, gênero tradicional em jornal impresso.
No primeiro texto “A morte do Nada”, Gleiser discute a suposta existência de um espaço vazio ou simplesmente o Nada, sob a atmosfera terrestre. Com uma escrita totalmente configurada na interpretação pela literatura narra, brevemente, a cronologia de estudos sobre a existência de um breu. Contextualizando com teóricos nas áreas de física, astronomia e filosofia, cita grandes nomes da ciência como Tales, Descartes, Aristóteles, Newton e Einstein, desmembrando esses estudos sobrepostos uns aos outros. Nessa publicação, o autor fala sobre a inquietude do ser humano em novas descobertas e em entender-se no seu espaço. Contudo, posiciona-se categoricamente ao encerrar sua discussão com a seguinte frase: “Existimos numa natureza plena-plena de essências e mistérios.”.
Já no segundo texto, “Copérnico traído”, fala sobre os problemas entre ciência e religião nos séculos 16 e 17. Para contar a história da traição a Copérnico, Gleiser narra a história desde a hipótese da circunferência terrestre até a publicação traiçoeira dos manuscritos da sua comprovação teórica. Diferente do primeiro texto analisado, em “Copérnico traído”, o autor não fala apenas da inquietude do ser humano, mas sim da difícil relação entre ciência e religião, ressaltando que muitos cientistas podem ser reconhecidos postumamente como é o caso de Copérnico. A Revolução Copernicana o teve junto a Galileu e Johannes Kepler. Por isso, Marcelo Gleiser termina dizendo que “Copérnico morreu traído, mas é imortalmente celebrado como um dos heróis da história do pensamento.
Seu texto fala diretamente ao leitor em alguns momentos, traz exemplificações relevantes à realidade cotidiana de quem lê sua coluna, além de trazer metáforas em seus textos. O autor intriga a mente do leitor que é conduzido para o que mais lhe parece plausível.


Por Thales de Oliveira

Zoonoses, um mal comum do qual ninguém fala



Pare tudo o que está fazendo, preciso te contar uma história!
Já ouviu falar em zoonoses?


     Há centenas de anos, homens e animais dividem um mesmo território. Desta convivência geram-se boas e más consequências e, entre elas, as doenças. Mesmo que o nome soe estranho em muitos ouvidos, Zoonose nada mais é que um termo para designar doenças e infecções transmitidas de forma natural entre bicho e humano. Apesar destes males serem erroneamente associados aos animais de rua, é importante ressaltar que neste cenário, ambos (homem e animal) atuam como verdadeiros hospedeiros. Entretanto, a transmissão – de fato – ocorre através de vírus, bactérias, fungos e outros microorganismos diversos.
       Hoje as zoonoses são consideradas um risco à saúde pública e sua mutação acompanha o desenvolvimento da sociedade. De um antigo conhecido como o bicho de pé até as novas doenças, como a H1N1, pode-se encontrar uma catalogação de aproximadamente 200 enfermidades.

Os diagnósticos das zoonoses

Alexandre V. Schwarzbold
   No centro do estado são elencadas por sua recorrência algumas doenças consideradas comuns como a leptospirose, a criptococoses, a tuberculose, a toxoplasmose e a histoplasmose. As zoonoses possuem tratamentos, mas nem todas podem chegar à cura, como é o exemplo da leptospirose, que atinge um índice de morte em 10%  dos casos.
     De acordo com o infectologista Alexandre Vargas Schwarzbold, é difícil estabelecer os indicativos de uma zoonose. Segundo ele, “em geral as doenças compartilham de alguns sintomas, que são chamados de sintomas sistêmicos e sugerem uma doença infecciosa que talvez tenha sido transmitida por animal”. Num panorama geral é possível citar a febre, o suor noturno, o emagrecimento, o aumento de gânglios e aumento do baço e do fígado. No entanto é somente com a sorologia laboratorial que se pode diagnosticar, de forma precisa, as zooonoses.

      Santa Maria é um município difícil de contabilizar os casos de zoonoses. De acordo com o médico especializado em saúde pública, Paulo Cesar Schaefer, “é importante o médico ter conhecimento sobre a situação do enfermo, pois o que leva ao diagnóstico é a queixa do paciente”. Entretanto, ele explica que muitos profissionais medicam seus pacientes a partir de seus quadros clínicos, e não detectam a presença da zoonose deixando de registrá-la. Schaefer relembra que “a leptospirose, por exemplo, é muito confundida com a gripe. Se o paciente não expuser o problema de forma clara, sem omissão de fatos, é difícil chegar aos agentes causadores, resultando em um tratamento equivocado”. O especialista ainda fala da falta de investigação médica ao estabelecer um diagnóstico preciso: “Se a medicação receitada surtiu efeito, o caso é dado como encerrado, ou ao menos, controlado”.
      Carlos Flávio Barbosa da Silva, médico veterinário e chefe do setor de vigilância em saúde, complementa a explanação de Paulo Schaefer quando diz que não é possível estabelecer um número exato de casos de zoonose em Santa Maria. Segundo ele, o fato se dá por consequência de um “procedimento conhecido como tratamento empírico”, que por sua vez, ocorre devido aos médicos não registrarem os casos de zoonoses junto ao estado.


Uma forma de controle das doenças


Animais que podem transmitir zoonoses são subdivididos em duas classes

      Segundo pesquisa realizada por Wanderson Kleber de Oliveira, Coordenador Nacional de Doenças Transmissíveis no Departamento de Vigilância Epidemiológica, estima-se que “75% das novas doenças humanas terão um animal ou um vetor envolvido em sua cadeia de transmissão”. Mas apesar do alto percentual de estimativa, estudos acompanham estas evoluções em busca de tratamentos e prevenções.
Durante muitos anos o único recurso para o controle de epidemias foi os Centros de Controle de Zoonoses (CCZ). Unidades de saúde pública, os CCZs previnem e controlam as zoonoses através de sistemas de vigilância sanitária. Promotores de ações educativas, os centros também são responsáveis pelo controle de animais, pelo recolhimento de errantes e pela eutanásia (para portadores de doenças sem tratamento).
     Em Santa Maria o controle destas doenças é um trabalho feito pela Vigilância em Saúde. Mesmo entendendo como necessária a implementação de uma estrutura de um CCZ no município, o chefe do setor de vigilância, Carlos Flávio Barbosa da Silva, ressalta que devemos “parar de pensar um serviço, uma ação ou uma atividade a partir de uma estrutura física”. Segundo o vigilante em saúde, a proteção à saúde deve ultrapassar o elemento físico, afinal, quando se trabalha com zoonose, é preciso conhecer o “perfil da população, a densidade populacional, os hábitos, costumes, posturas, condutas, atitudes e formações”. Silva põe em relevância a formação do povoamento de uma região, pois ao adentrar a natureza, o homem afeta o ponto de equilíbrio do meio ambiente.
     Esta má ocupação geográfica e a falta de estrutura municipal deixam espaço para o aumento de doenças. Deste modo, para remediar a propagação destas doenças, hábitos de higiene podem ser necessários. Tratar o esgoto, manter a casa limpa e destinar adequadamente os lixos, são mudanças que ajudam garantir a saúde do homem e do animal.



Soluções aplicadas pela administração pública

Vereador Manuel Badke

     Além das manifestações da comunidade é também de interesse do governo garantir a saúde da população. Manuel Badke, presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria, explica que a cidade está em processo de adaptação às novas leis.
     Três novidades devem se instalar na cidade e a primeira a ser posta em prática é a microchipagem. Animais considerados domésticos deverão ser registrados em um cadastro público e receber um chip. Com a nova lei, o chip funcionará como uma espécie de identidade que remeterá o animal ao seu dono e atribuirá a ele todas as responsabilidades de possíveis acontecimentos como o abandono e maus tratos. Outras novidades serão: a Central do Bem Estar do Animal e a criação do Conselho Municipal de Proteção Animal.  Um novo conceito de ação preventiva, de acordo com Badke, os novos projetos visam garantir os direitos e os cuidados com os animais, além estimular o zelo coletivo pela autoavaliação do comportamento social.



*Dados estatísticos foram solicitados para o Hospital Universitário de Santa Maria e para a Vigilância Sanitária de Santa Maria. Até o fechamento desta matéria não foi possível obtê-los.



Prevenção por vacinação

De acordo com a informação prestada pela central de vacinas de Santa Maria, no portal da saúde do governo nacional é possível encontrar as vacinas para crianças, adolescentes, adultos e idosos ( http://portal.saude.gov.br) e na página da prefeitura de Santa Maria, estão disponíveis os contatos dos postos de saúde (http://www.santamaria.rs.gov.br/saude).




Conheça as principais Zoonoses:


Zoonoses e Doenças
Parasitárias
Agente Etiológico
Principais Fontes de Infecção e Reservatórios
  Vias de Transmissão
Criptosporidiose
 Cryptosporidium spp
 Mamíferos
 Ingestão de água e alimentos contaminados com oocistos
 Doença de Chagas
 Trypanosoma cruzi
 Mais de 200 espécies de mamíferosprincipalmente o gambá Didelphis sp
 Contato com as fezes dos vetores biológicos (hemípteros) principalmente dos gêneros Triatoma, Panstrongylus e Rhodnius contendo tripomastigotas
 Giardíase
 Giardia intestinalis
 Carnívoros
 Ingestão de água e alimentos contaminados com cistos
 Larva migrans cutânea
 Ancylostoma braziliensis
 Canídeos
 Solo contaminado com ovos do parasita e através da pele (larvas)
 Larva migrans visceral
 Toxocara canis
 Canídeos
 Fecal-oral (solo contaminado com ovos do parasita)
 Leishmaniose tegumentar
 Leishmania braziliensis
 Roedores (principais), preguiça, tamanduá,
canídeos, eqüídeos
 Vetores biológicos flebotomíneos Lutzomyia spp (mosquito-palha)
 Leishmaniose visceral
 Leishmania chagasi
 Canídeosprincipais reservatórios
 Vetores biológicos flebotomíneos Lutzomyia spp (mosquito-palha)
 Toxoplasmose
 Toxoplasma gondii
 Felídeos e animais endotérmicos
 Ingestão de oocistos esporulados na água e alimentos contaminados, carnivorismo (cistos teciduais-bradizoítas) ou transplacentária (taquizoítas)



 Zoonoses e doenças infecciosas
 Agente Etiológico
  Principais Fontes de Infecção e Reservatórios
 Vias de Transmissão
 Brucelose
 Brucella abortus B. suis,B. ovis e B. canis
 Ungulados e carnívoros
 Ingestão de pastos contaminados com brucélas através de fetos abortados, placenta e líquidos uterinos. Exposição por meio das mucosas genital e conjuntival, da pele e das vias respiratórias
 Febre maculosa
 Rickettsia rickettsii
 Capivaras.Principal reservatório suspeito
 Através de picadas de carrapatos, possivelmente do gênero Amblyomma spp
 Histoplasmose
 Histoplasma capsulatum
 Morcegos e aves
 Através da inalação dos esporos dos fungos em ambientes fechados, cavernas principalmente
 Leptospirose
 Leptospira interrogans.Diversos sorovares
 Roedores e carnívoros
 Por meio de contato de mucosas ou pele com água, fômites ou alimentos contaminados com urina dos animais (fontes de infecção)
 Raiva
 Lyssavirus
 Morcegos e carnívoros
 Através da mordedura de animais raivosos
 Salmonelose
 Salmonella spp
 Répteis, aves e mamíferos
  Através da ingestão de salmonelas viáveis
 Tuberculose
 Mycobacterium
tuberculosis e M. bovis
 Mamíferos: Herbívoros, carnívoros e primatas
 
 Através da inalação de esporos no meio ambiente, principalmente fechado.
Fonte: Portal da Educação.


Por  Aline Zuse e Rúbia Keller